BEM-AVENTURADOS
OS QUE CHORAM
De quando em quando, no campo da religião, surge algum fato associado a estátuas que verteram ou teriam vertido lágrimas. Como é de costume, o assunto desperta o interesse da mídia e, por conseguinte, da população que amplia o assunto sob os mais diversos ângulos e percepções.
Com certeza, algumas pessoas, não necessariamente céticas ou descrentes, rejeitariam acreditar em tal possibilidade e associariam o assunto a algum tipo de crendice popular ou, até mesmo, de fenomenologia arranjada. Outras, ao contrário, não colocariam dúvidas sob o suposto acontecimento e o tratariam como algo digno de reverência.
Deixando de lado os posicionamentos e as polarizações que emanam do episódio em si, surge para nós, a partir dele, uma dupla pergunta: Será que somos uma geração que desaprendeu a chorar e que ainda não entendeu o sentido da bem-aventurança que diz: “bem-aventurados os que choram, porque serão consolados”?
Se examinarmos a nós mesmos e a geração atual com franqueza, veremos que o amor tem se esfriado de muitos, apesar do aquecimento global. E por que dizemos isso? Por constatarmos um número cada vez maior de pessoas dispostas a ocultar, negar e, até mesmo, a querer por fim em todo tipo sofrimento, imaginando ser possível viver neste mundo, marcado pelo imprevisível, sem incômodos. Evidentemente, não estamos aqui propondo, sob hipótese alguma, um modo de viver masoquista, mas, simplesmente, olhando para a vida sem máscaras ou fantasias.
Por fim, precisamos nos desvencilhar dos sentimentos ilusórios e lembrar sempre que todo aquele que rejeita o amor que tudo sofre, demonstra não estar disposto a chorar com ninguém e por ninguém, a não ser que tenha consigo o espírito das carpideiras. Se isso acontecer nos tornaremos uma geração petrificada, sem lágrimas, que se volta para as estátuas e imagens querendo ver nelas o que não vê mais em si mesma.
Uéslei Fatareli, rev.
Mestre em Ciências da Religião
pela Universidade Presbiteriana Mackenzie
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